Os “Poemas de Álvaro de Campos” representam um dos pilares mais fascinantes e complexos da obra de Fernando Pessoa, desvendando a voz de um dos seus mais célebres heterónimos. Álvaro de Campos, engenheiro naval de formação, é a personificação da modernidade, da velocidade e da voragem dos sentimentos.
A sua poesia é inicialmente marcada por um entusiasmo quase febril pela vida contemporânea. Poemas como a “Ode Triunfal” e a “Ode Marítima” celebram o maquinismo, a indústria, a força bruta e a energia dos portos e das cidades. Ele abraça o futurismo e o sensacionismo, procurando sentir tudo de todas as formas possíveis, num frenesim de experiências e sensações.
Contudo, essa euforia inicial dá lugar a uma profunda desilusão e melancolia. A busca incessante por sensações e a tentativa de abarcar o mundo na sua totalidade conduzem Campos a um vazio existencial. Ele percebe que a verdadeira experiência é inatingível e que a modernidade, com todo o seu progresso, não preenche a alma.
Inicia se então a fase da angústia, do tédio e da incompreensão. Campos sente se um estrangeiro no seu próprio tempo e na sua própria pele. Os seus poemas tornam se um lamento sobre a inutilidade dos sonhos, a efemeridade da vida e a impossibilidade de ser plenamente si mesmo ou de encontrar um sentido genuíno.
Ele expressa a dor da consciência excessiva, a sensação de ser múltiplos e nenhum ao mesmo tempo. A dispersão do eu, a fragmentação da identidade e a constante oscilação entre o desejo de ser tudo e a resignação de não ser nada são temas recorrentes desta fase mais introspectiva.
A linguagem de Campos é tão complexa quanto o seu universo interior. Utiliza versos longos, por vezes caóticos, com exclamações e interjeições que espelham a sua agitação mental. Existe uma musicalidade própria, mesmo na aparente desordem, que envolve o leitor e o conduz ao seu turbilhão emocional.
A obra é também um espelho das inquietações filosóficas do século XX. O homem moderno, confrontado com a perda das referências tradicionais e com a aceleração vertiginosa da vida, encontra em Campos um eco para as suas próprias dúvidas e desamparos existenciais. A efemeridade e a falta de propósito são exploradas com rara intensidade.
“Tabacaria” é talvez o poema mais emblemático desta fase de reflexão profunda e desencanto, no qual o heterónimo confronta a sua própria vida com a vida trivial que observa da rua, culminando numa das mais pungentes declarações de solidão e insignificância perante o universo.
Os “Poemas de Álvaro de Campos” permanecem incrivelmente atuais pela sua capacidade de expressar a condição humana perante a modernidade. A busca por sentido, a solidão na multidão, o desejo de intensidade e a inevitável desilusão atravessam toda a obra. Trata se de uma jornada poética de luz e sombra que ressoa profundamente no leitor.
No conjunto da obra de Pessoa, os poemas de Álvaro de Campos são essenciais para compreender a complexidade da alma moderna e a genialidade do seu criador. Oferecem um testemunho lírico e poderoso das ansiedades e maravilhas do mundo contemporâneo, visto pelos olhos de um dos mais célebres engenheiros de emoções.



