“O ‘Primeiro Fausto’ de Fernando Pessoa é uma obra monumental e, infelizmente, inacabada, que representa uma das mais ambiciosas incursões do poeta na temática faustiana. Não se trata de uma simples releitura ou tradução do clássico de Goethe, mas sim de uma profundíssima reflexão sobre a condição humana moderna, a busca pelo conhecimento e o sentido da existência.
Pessoa aborda o mito de Fausto sob uma perspectiva singular, transformando-o num espelho para as inquietações do homem contemporâneo. O Fausto pessoano não se vende ao diabo por prazeres mundanos, mas sim pela compreensão última da realidade, pela superação da angústia da consciência e pela transcendência dos limites do eu.
A obra é composta por fragmentos de prosa e poesia, diálogos dramáticos e meditações filosóficas, evidenciando a pluralidade de vozes e perspectivas que caracterizam a escrita de Pessoa. Fausto, neste contexto, desdobra-se em diversas facetas, ora como intelectual atormentado, ora como místico em busca do absoluto.
Um dos pontos centrais é a exploração da natureza do conhecimento e suas limitações. Fausto, com sua sede insaciável, confronta-se com a impossibilidade de atingir uma verdade unívoca, mergulhando na complexidade da percepção e na ilusão da realidade que os sentidos e a razão podem oferecer.
A figura de Mefistófeles, por sua vez, assume um papel menos demoníaco e mais psicólogo, atuando como um catalisador para as reflexões de Fausto, um espelho cínico da mente humana. Ele não tenta corromper, mas sim expor as contradições e os impasses da consciência faustiana.
A obra é um palco para a autoanálise e a fragmentação do eu, temas recorrentes na poética de Pessoa. Fausto experimenta a diluição da identidade, a multiplicidade de personas e a sensação de que o ‘eu’ é uma construção fluida e mutável, ecoando os heterônimos do autor.
Através de longos monólogos e diálogos densos, Pessoa articula questionamentos existenciais profundos, como o propósito da vida, o destino da alma, a relação entre o finito e o infinito, e a constante busca por um sentido num universo aparentemente indiferente.
A linguagem é rica e complexa, alternando momentos de lirismo intenso com trechos de lucidez filosófica cortante. O vocabulário é vasto e a sintaxe, por vezes, desafiadora, mas sempre a serviço da expressão das ideias mais intrincadas.
O fato de ser inacabada confere ao ‘Primeiro Fausto’ um charme melancólico e uma abertura interpretativa. A ausência de um desfecho tradicional ressalta a própria condição humana, sempre em busca e nunca plenamente realizada, espelhando a incessante jornada de Fausto.
Em suma, o ‘Primeiro Fausto’ é uma obra essencial para compreender a profundidade filosófica de Fernando Pessoa. É um drama existencial em forma de poesia e prosa, que convida o leitor a uma profunda imersão nos abismos da mente e nos mistérios da existência humana, revelando a modernidade do pensamento do poeta português.”



