““Mensagem”, de Fernando Pessoa, é uma obra singular na literatura portuguesa e mundial, não apenas uma coletânea de poemas, mas uma epopeia lírica que reinterpreta a história e o destino de Portugal. Publicada em 1934, é o único livro de poesia em língua portuguesa que Pessoa publicou em vida, e nele se condensa a sua visão profunda e mística da nação.
A obra estrutura-se em três partes, iniciando com “Brasão”, que evoca os símbolos e heróis fundadores de Portugal. Cada poema aqui se detém em figuras emblemáticas da mitologia e da história portuguesa, desde Ulisses até D. Afonso Henriques e Nuno Álvares Pereira, transformando-os em arquétipos da identidade e da vontade nacional, como se cada um fosse uma peça no escudo heráldico do país.
A segunda parte, “Mar Português”, celebra a era das grandes navegações, o período áureo das descobertas. Pessoa glorifica a audácia e o sacrifício dos navegadores, que enfrentaram o desconhecido e “deram novos mundos ao mundo”. Contudo, a glória não vem sem um preço, e a própria vastidão do mar simboliza a dor, a perda e a saudade inerentes à conquista e à expansão.
Após a glória marítima, “Mensagem” mergulha na fase de declínio e na perda do império material. O entusiasmo inicial cede lugar a uma melancolia profunda, um sentimento de orfandade e de um tempo passado que se recusa a morrer, mas que já não se manifesta na realidade palpável, preparando o terreno para a busca de um novo sentido.
A terceira e última parte, “O Encoberto”, aborda o período de decadência e a espera messiânica pelo retorno do rei D. Sebastião, o “Encoberto”, figura central do sebastianismo. Este segmento expressa a esperança na ressurreição espiritual de Portugal, que, da obscuridade e do esquecimento, ascenderá a um novo patamar de glória.
Essa ressurreição, para Pessoa, não é um regresso ao império territorial, mas sim a concretização do “Quinto Império”. Não se trata de uma dominação política ou militar, mas de um império de cultura, de espírito, onde Portugal, através da sua alma poética e mística, liderará a humanidade para uma nova era de compreensão e sabedoria.
A poesia em “Mensagem” atua como um veículo para essa transformação. Pessoa defende que é através do sonho, da criação de mitos e da transcendência da realidade visível que o verdadeiro destino de Portugal se revelará. O poeta torna-se o profeta, aquele que vê além e molda o futuro com a palavra e a visão interior.
Os temas de sacrifício, destino, a dualidade entre o real e o ideal, e a alma coletiva portuguesa perpassam toda a obra. “Mensagem” é uma meditação sobre a identidade nacional, sobre a necessidade de transcender a história para alcançar um patamar mítico, onde a dor do passado se transmuta em esperança para o futuro.
Pessoa não narra a história, ele a reinterpreta, a mitifica, elevando os eventos e as figuras a símbolos atemporais. A obra é um convite a olhar para Portugal não apenas como uma nação com um passado glorioso, mas como uma entidade viva, com um destino místico a cumprir, ainda que oculto e esperando ser revelado.
Em suma, “Mensagem” é uma epopeia moderna que, ao revisitar a história de Portugal com uma lente mística e profética, propõe um renascimento espiritual para a nação e, por extensão, para a humanidade. É um hino à esperança, à persistência da alma portuguesa e à capacidade transformadora da poesia.”



