“O Abolicionismo””, de Joaquim Nabuco, é uma obra fundamental para a compreensão de um dos períodos mais cruciais da história brasileira: a luta contra a escravidão. Publicado em 1883, no auge do movimento abolicionista, o livro não é apenas um registro histórico, mas um manifesto apaixonado e um apelo à consciência nacional. Nabuco, ele próprio um abolicionista fervoroso, oferece uma análise profunda das raízes e consequências da escravidão no Brasil, ao mesmo tempo que defende com veemência a urgência de sua completa erradicação.
O autor se posiciona não como um mero observador, mas como um participante ativo e ideólogo da causa. Sua escrita reflete uma convicção moral inabalável, enxergando a escravidão não apenas como um sistema econômico ou uma questão política, mas como uma mancha moral e social que degradava a nação. Ele argumenta que a liberdade dos escravizados era um imperativo ético, essencial para o futuro e a dignidade do Brasil.
Nabuco descreve a escravidão como uma instituição profundamente arraigada na estrutura econômica e social brasileira, distinta talvez de outras nações por sua longa duração e a vasta escala de sua perpetuação. Ele explora como o sistema escravista moldou as relações de poder, a cultura e a mentalidade do país, criando uma sociedade dependente e resistente à modernização.
A obra detalha o surgimento e a evolução do movimento abolicionista, destacando os esforços de indivíduos e grupos que, contra forte oposição, ousaram desafiar o status quo. Nabuco narra a formação de associações, a publicação de jornais, os debates parlamentares e as campanhas populares que gradualmente forçaram a questão da abolição para o centro do debate público, mobilizando a opinião nacional e internacional.
O autor também aborda a pressão e a influência de movimentos abolicionistas em outros países, especialmente na Inglaterra, que desempenhou um papel significativo na condenação global da escravidão. Nabuco contextualiza a luta brasileira dentro de um panorama mais amplo, mostrando como as tendências internacionais e a busca por uma imagem de nação civilizada impulsionavam a causa abolicionista no Brasil.
Além dos preceitos morais, Nabuco apresenta uma robusta argumentação econômica contra a escravidão. Ele demonstra como o trabalho escravo era ineficiente e impedia o desenvolvimento econômico do país, sufocando a inovação, a produtividade e a formação de um mercado de trabalho livre. Para ele, a abolição não era apenas uma questão de justiça, mas um passo necessário para a prosperidade e modernização do Brasil.
A obra explora as profundas consequências sociais e morais da escravidão, não apenas para os cativos, mas para toda a sociedade brasileira. Nabuco argumenta que a instituição corrompia os valores, promovia a ociosidade entre os senhores e impedia a formação de uma cidadania plena e igualitária. A libertação dos escravizados era vista como a libertação da própria nação de um sistema degradante.
Nabuco, ele próprio deputado, oferece um olhar de dentro sobre a batalha pela abolição nas esferas políticas. Ele descreve a resistência dos grandes proprietários de terras e seus representantes no parlamento, os adiamentos, as estratégias para protelar a decisão final e a dificuldade de romper com os interesses arraigados que se beneficiavam da mão de obra escrava.
Antecipando a abolição, Nabuco já projetava os desafios que a nação enfrentaria. Ele enfatizava a necessidade de políticas de integração para os ex-escravizados, incluindo educação, acesso à terra e oportunidades de trabalho digno, alertando para o risco de que a liberdade legal não se traduzisse em plena inclusão social e econômica sem ações deliberadas do Estado e da sociedade.
“”O Abolicionismo”” permanece um documento de importância inestimável, não apenas como registro histórico de um movimento vitorioso, mas como um testemunho da capacidade de luta por ideais de justiça e liberdade. A obra de Nabuco transcende seu tempo, continuando a provocar reflexão sobre as desigualdades sociais, os legados da escravidão e a necessidade contínua de construir uma sociedade mais justa e equitativa no Brasil.”



