O livro inicia com a trajetória de Francisco de Assis França no bairro do Rio Doce, em Recife, onde Chico Science cresceu imerso na rica cultura pernambucana. Desde cedo, ele demonstrou um fascínio pelos ritmos tradicionais como o maracatu, o coco e o ciranda, mas também se interessava por movimentos musicais internacionais como o rock e o funk. Essa dualidade marcaria toda a sua carreira e se tornaria a base do que mais tarde seria chamado de Manguebeat. Moisés Neto descreve como Chico Science formou a banda Nação Zumbi em 1991, reunindo músicos de diferentes formações e influências. A banda rapidamente ganhou notoriedade na cena alternativa de Recife, com shows energéticos que quebravam barreiras entre os públicos. O autor detalha o processo de criação do som único do grupo, que mesclava elementos eletrônicos com instrumentação tradicional, criando uma sonoridade inconfundível que chamava a atenção nacional. Um dos pontos altos da obra é a análise detalhada do álbum "Da Lama ao Caos", lançado em 1994 e que se tornou um marco na música brasileira. Moisés Neto faz uma faixa por faixa, explorando as influências, as letras e a produção do disco que consagrou o Manguebeat e levou Chico Science e a Nação Zumbi ao estrelato nacional. O autor também contextualiza o álbum no cenário político e cultural da época, marcado por transformações profundas no Brasil pós-redemocratização. O livro dedica capítulos importantes à relação de Chico Science com a sua cidade natal. Recife, com seus contrastes e suas particularidades culturais, é apresentada como um personagem fundamental na trajetória do artista. Moisés Neto explora o conceito de "mangue" – o ecossistema de manguezal que rodeia a cidade – como metáfora para a mistura de elementos que definia tanto a música quanto a identidade cultural que Chico Science buscava expressar. A obra não ignora os desafios e controvérsias enfrentados por Chico Science. O autor aborda com sensibilidade as tensões entre a visão do artista e as expectativas da indústria musical, bem como as dificuldades em conciliar a autenticidade cultural com a necessidade de alcançar um público mais amplo. Moisés Neto também explora a complexa relação de Chico Science com a mídia e como ele se posicionava frente às narrativas que tentavam enquadrar sua música em categorias preestabelecidas. Um aspecto relevante do livro é a atenção dada às colaborações de Chico Science com outros artistas. Moisés Neto detalha parcerias importantes, tanto dentro do Nordeste quanto em outras regiões do Brasil e exterior, mostrando como Chico Science era respeitado como um inovador que abria portas para novas possibilidades criativas. Essas colaborações são apresentadas como evidências do impacto de sua visão musical em outros músicos e movimentos culturais. O livro também explora em profundidade as influências que moldaram a visão de mundo de Chico Science. Moisés Neto vai além das influências musicais, explorando sua relação com a literatura, o cinema, a política e as artes plásticas. A obra demonstra como Chico Science era um intelectual que se inseria num debate mais amplo sobre identidade, modernidade e tradição no Brasil contemporâneo, usando a música como sua principal ferramenta de expressão. Um dos capítulos mais comoventes do livro é dedicado aos últimos anos de vida de Chico Science. Moisés Neto descreve a crescente fama do artista, os desafios de sustentar um projeto musical ambicioso como o Manguebeat, e as pressões que vieram com o reconhecimento nacional. O autor também aborda com delicadeza a tensão entre a vida pública e a vida privada do músico, mostrando como ele tentava manter uma conexão autêntica com suas raízes mesmo no auge da fama. A tragédia da morte prematura de Chico Science em 1997 é abordada com a sensibilidade que o tema merece. Moisés Neto não apenas narra os fatos do acidente fatal, mas explora o impacto que a perda teve na cena musical brasileira e como o legado de Chico Science se transformou após sua morte. O autor também explora como a obra de Chico Science continuou a evoluir através da Nação Zumbi, que manteve viva a sua visão musical mesmo após o falecimento do líder. O livro conclui com uma reflexão sobre o legado duradouro de Chico Science. Moisés Neto argumenta que, mais de duas décadas após sua morte, a influência de Chico Science continua a ser sentida na música brasileira, no debate sobre identidade cultural e na forma como o Nordeste se posiciona no cenário cultural nacional. A posição "afrociberdélica" de Chico Science, que misturava tradição e modernidade de forma única, é apresentada como uma lição permanente sobre a possibilidade de criar algo novo a partir das raízes mais profundas da cultura brasileira.