O livro se apresenta como a autobiografia sem fatos de Bernardo Soares, modesto ajudante de guarda-livros que registra, em fragmentos, tudo o que pensa e quase nada do que vive. Os trechos iniciais estabelecem o cenário mínimo: a Rua dos Douradores, o patrão Vasques, os livros de contabilidade, a janela do escritório. Desse quase nada, Soares extrai um universo inteiro: cada página converte o banal em ocasião de análise minuciosa e de beleza inesperada. O tédio é o grande protagonista, examinado em todas as suas nuances, do enfado cotidiano à náusea metafísica. O sonho aparece como pátria verdadeira: incapaz de viver, o narrador vive de imaginar, e prefere as viagens que nunca fez às que poderia fazer. Lisboa atravessa o livro inteiro, com suas luzes, chuvas e crepúsculos, descrita com precisão de pintor e alma de poeta. Entre os temas recorrentes estão a identidade múltipla, a impossibilidade do amor, a arte como único consolo e a consciência como fardo. A lucidez implacável convive com a ternura pelas pequenas coisas: um caixeiro, um bonde, a luz de uma tarde qualquer merecem a mesma atenção que os grandes temas. Não há enredo nem progresso: o leitor avança em espiral, voltando sempre aos mesmos abismos por caminhos novos. Alguns trechos alcançam a intensidade de verdadeiros poemas em prosa e figuram entre as páginas mais altas já escritas na língua portuguesa. Termina-se a leitura, ou melhor, interrompe-se, pois este livro não termina, com a estranha sensação de ter habitado outra alma, e de que o desassossego dela ilumina o nosso.