O sermão começa com um desejo de Vieira: que o auditório saia tão desenganado da pregação como veio enganado com o pregador. Lê o evangelho do semeador que saiu a semear. Parte do trigo caiu entre espinhos e foi afogada, parte caiu nas pedras e secou, parte caiu no caminho e foi pisada pelos homens e comida pelas aves, e a última nasceu e rendeu cem por um. Vieira compara essa sorte à dos missionários do Maranhão, de que fala como quem acabou de voltar de lá: houve missionários afogados no Amazonas, comidos pelos bárbaros e mirrados de fome nas brenhas. Conclui que, se o semeador do evangelho não desistiu, os que já perderam três partes da vida ainda podem dar fruto na quarta.
Na segunda parte, explica a parábola: o trigo é a palavra de Deus e os espinhos, as pedras e o caminho são corações embaraçados, duros e inquietos. Daí tira a pergunta que dirige o sermão: se a palavra de Deus é tão poderosa, por que se vê tão pouco fruto, quando nunca houve tantos pregadores? Ele diz que vai começar pregando a si mesmo.
Na terceira, divide a conversão em três concursos, o do pregador com a doutrina, o do ouvinte com o entendimento e o de Deus com a graça. Por parte de Deus não falta nada. Por parte do ouvinte também não, pois até nas pedras e nos espinhos o trigo nasceu. Sobra o pregador.
Da quarta à oitava parte, Vieira examina cinco circunstâncias. Na pessoa, a vida e o exemplo contam mais que as palavras, porque a alma se rende mais pelos olhos que pelos ouvidos, como quando a cortina se abre e aparece o Ecce Homo. O estilo deve ser natural e claro, como o semear e como as estrelas, e ele ataca os pregadores cultos. A matéria deve ser uma só, como o tronco de uma árvore. A ciência deve ser própria e não emprestada. A voz pode bradar, mas também falar baixo. Em cada ponto, Vieira dá razão ao argumento e depois cita um caso bíblico que o desmente, como o de Jonas, que converteu Nínive apesar de fugitivo e desobediente; nenhum explica o problema.
Na nona parte dá a causa verdadeira: os pregadores usam palavras de Deus em sentido alheio, como o Diabo citou a Escritura a Cristo no pináculo do templo. Sermões assim são fábula e comédia, e Vieira censura os religiosos que sobem ao púlpito de hábito de penitência para “derreter cristais” e “desmaiar jasmins”.
Na décima, ouve a objeção de que os ouvintes zombam de quem prega assim, e responde que não importa: o médico não olha o gosto do doente, e o fruto vem com o sofrimento. Conta o caso de um lente de Coimbra que, entre dois pregadores, dizia sair de um muito contente com o pregador e do outro muito descontente consigo. Vieira pede que os ouvintes saiam descontentes de si, não do pregador, e termina lembrando que se está às portas da Quaresma.
