O auto começa com uma explicação: no momento em que morremos, chegamos de repente a um rio que temos de atravessar num de dois barcos. Um vai para o paraíso e é conduzido por um Anjo; o outro vai para o inferno, com o Diabo e um Companheiro. Antes que chegue alguém, o Diabo apressa o Companheiro a preparar a barca.
O primeiro é o Fidalgo, dom Anrique, seguido de um pajem que carrega a cauda da roupa e uma cadeira. Ele conta com as rezas de quem deixou na outra vida, e o Diabo ri dele. No barco do Anjo ouve que ali não entra tirania: desprezou os pequenos. Pede ainda para voltar e ver a dama, que se mataria por ele, e a mulher; o Diabo responde que a dama o enganava e que a mulher agradeceu a morte dele. O Fidalgo embarca, e a cadeira fica em terra.
O Onzeneiro se queixa de que não lhe deixaram dinheiro nem para o barqueiro. O Anjo o recusa por causa do bolsão, e o Diabo o obriga a entrar quando ele pede para voltar ao mundo e buscar o dinheiro.
Joane, o Parvo, diz que morreu “de caganeira” e, ao saber para onde vai a barca, cobre o Diabo de insultos. O Anjo diz que ele pode passar, porque nunca errou por malícia, e manda-o esperar. Dali o Parvo comenta os que vêm depois.
O Sapateiro chega de avental, carregado de formas. Diz que morreu confessado e ouviu muitas missas; o Diabo responde que morreu excomungado e roubou o povo durante trinta anos. O Anjo diz que a carga o atrapalha, e ele volta ao Diabo.
O Frade vem dançando, de mão dada com Florença, com espada, broquel e um capacete debaixo do capuz. Não entende como um frade que rezou tantos salmos pode ser condenado por ter uma mulher. Dá uma lição de esgrima, leva a moça ao barco do Anjo, que nem lhe responde, e acaba embarcando no do Diabo.
Brízida Vaz, a alcoviteira, lista a bagagem: seiscentos virgos postiços, três arcas de feitiços e as moças que vendia. Ao Diabo diz que é mártir, pelos açoites que levou; ao Anjo, que criava meninas para os cônegos da Sé. O Anjo a manda embora.
O Judeu chega com um bode às costas e oferece dinheiro para passar com ele. O Diabo recusa o bode; o Parvo o acusa de urinar numa igreja e de comer carne em dia santo. O Diabo decide levá-lo a reboque, com o bode.
Chega o Corregedor, carregado de processos. O Diabo o acusa, num latim misturado com português, de roubar e de aceitar subornos, e ele põe a culpa na mulher. Logo aparece o Procurador, carregado de livros. Os dois vão ao Anjo, que os manda para o batel infernal. Já dentro, o Corregedor reconhece Brízida Vaz.
O Enforcado conta que Garcia Moniz lhe garantiu que morrer na forca o levaria ao paraíso. O Diabo responde que ele se salvaria se tivesse levado a sério o que ouviu, e o manda embarcar.
Por fim, quatro Cavaleiros passam cantando, cada um com a cruz de Cristo; morreram lutando contra os mouros. Não dão atenção ao Diabo e vão direto ao Anjo, que os esperava como mártires da Igreja. E embarcam.
