O Auto da Barca do Inferno é uma peça curta, em versos, de Gil Vicente, representada pela primeira vez em 1517. A rubrica de abertura a chama de “auto de moralidade” e diz que foi composta para a rainha D. Leonor e representada por ordem dela para o rei D. Manuel. A situação cabe numa frase: quem acaba de morrer chega a um rio e tem de atravessá-lo num de dois barcos. Um vai para o paraíso, com um Anjo na proa. O outro vai para o inferno, com o Diabo e um Companheiro.
Do que trata Auto da Barca do Inferno
A peça é uma fila de chegadas. Cada morto fala primeiro com o Diabo, descobre para onde vai aquele barco e quase sempre corre ao do Anjo pedindo passagem. O que cada um traz consigo pesa contra ele: a cadeira do Fidalgo, o bolsão do Onzeneiro, as formas do Sapateiro, a amante do Frade, os processos do Corregedor. Brízida Vaz, a alcoviteira, enumera a própria bagagem: “Seiscentos virgos postiços / e três arcas de feitiços”.
O Anjo só aceita Joane, o Parvo, porque ele nunca errou por malícia, e quatro Cavaleiros que morreram lutando contra os mouros. O Judeu e o Enforcado nem chegam a falar com ele.
Sátira e riso
Gil Vicente não poupa quase ninguém: a nobreza, o clero, quem vive de dinheiro, os homens da justiça. O Parvo despeja no Diabo uma enxurrada de xingamentos escatológicos, o Frade dança e dá uma aula de esgrima na beira do rio, e o Corregedor discute com o Diabo num latim misturado com português.
A cena do Judeu é a mais incômoda para quem lê hoje: ele chega com um bode às costas, é ridicularizado pelo Parvo e acaba levado a reboque, fora do barco. O riso ali é todo às custas dele, e provavelmente é o trecho que mais envelheceu.
O auto na escola
Em Portugal, as Aprendizagens Essenciais de Português do 9.º ano, de 2018, indicam o Auto da Barca do Inferno ou a farsa Auto da Índia. No Brasil, a peça esteve na lista de leituras obrigatórias comum à Fuvest e à Unicamp no vestibular de 2008. Para revisar a ordem das personagens, há o resumo do Auto da Barca do Inferno.
Sobre esta edição
O arquivo é um PDF de 19 páginas. Segundo a nota de abertura, o texto vem da Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro, da USP, e foi digitalizado pelo Projecto Vercial, com copyright da OPSIS Multimédia. A grafia usa acentos modernos, mas conserva formas antigas como “pera”, “cousa”, “nom” e “assi”.
A rubrica de abertura e o fim (“E assi embarcam”) são os da versão de 1517, e não os da Copilaçam de 1562, a primeira reunião das obras de Gil Vicente, organizada pelos filhos. O autor morreu por volta de 1536, e a peça está em domínio público. Outras peças dele no site: Farsa ou Auto de Inês Pereira e Auto da Alma.

