Quatro ou cinco cavalheiros conversam à noite sobre questões metafísicas quando Jacobina, até então calado, decide contar um caso. Ele impõe uma condição: não admitirá apartes nem contestações enquanto fala. Expõe sua teoria: cada ser humano tem duas almas, uma interior e outra exterior, que pode ser uma farda, um título, o olhar dos outros. Perdida a alma exterior, garante ele, o equilíbrio inteiro desaba. Aos vinte e cinco anos, conta, foi nomeado alferes da Guarda Nacional, e a novidade transformou sua vida. Na casa da tia Marcolina, era tratado como senhor alferes a toda hora; o cargo foi tomando o lugar do homem. Chamada a tia para longe, Jacobina fica sozinho na fazenda com os escravos, que fogem na primeira noite. Com eles, vai embora o pouco de mundo que restava na casa. No isolamento absoluto, sem ninguém que o veja, sente a própria identidade desfazer-se; o espelho da sala reflete uma figura esfumada e difusa. Dias de angústia se seguem, entre o silêncio da casa e a sensação de ser um defunto que anda. A salvação vem por acaso: veste a farda de alferes e, diante do espelho, a imagem recompõe-se inteira e nítida. A alma exterior voltara a funcionar. Passa a vestir a farda todos os dias e atravessa assim a solidão, restituído pelo olhar que a farda lhe devolve. Terminada a história, Jacobina desce a escada sem esperar réplica, e deixa o leitor diante do próprio espelho, perguntando-se quanto de si existe sem os olhos dos outros.