Numa noite, quatro ou cinco cavalheiros discutem questões de metafísica numa sala pequena, à luz de velas, numa casa do morro de Santa Teresa. Um quinto homem, Jacobina, entre quarenta e cinquenta anos, provinciano e capitalista, fica calado, como sempre: diz que discutir é a forma polida do instinto de briga. Quando a conversa chega à natureza da alma e ninguém se entende, um dos amigos lhe pede uma opinião. Jacobina responde que não discute, mas que pode contar um caso da sua vida, se o ouvirem calados.
Antes do caso, expõe a teoria. Cada pessoa traz duas almas, uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro. A exterior pode ser um objeto, uma ocupação, um botão de camisa, e perdê-la pode significar perder a existência inteira, como aconteceu a Shylock com os ducados. Também muda de natureza: o que foi um cavalinho de pau na infância pode ser uma provedoria de irmandade mais tarde.
O caso: aos vinte e cinco anos, pobre, foi nomeado alferes da Guarda Nacional. A mãe passou a chamá-lo “o seu alferes” e os amigos lhe deram o fardamento. Uma tia viúva, D. Marcolina, que vivia num sítio solitário a muitas léguas da vila, pediu que ele fosse visitá-la com a farda e não o deixou voltar antes de um mês. Na casa dela, todos o tratavam por “senhor alferes”, inclusive o cunhado da tia e os escravos. Ele pedia que o chamassem de Joãozinho, como dantes, e a tia recusava. Para honrá-lo, mandou pôr no quarto dele um grande espelho antigo que estava na sala. Em três semanas, diz Jacobina, era “exclusivamente alferes”.
Um dia a tia recebe a notícia de que uma filha está à morte, parte com o cunhado e deixa o sobrinho tomando conta do sítio. À noite os escravos redobram os “nhô alferes”; de manhã tinham fugido, levando até os cães. Jacobina fica só com galinhas, mulas e bois. Os dias se arrastam ao ritmo da pêndula do relógio. Ele se sente “um defunto andando”. Dormindo, sonha que está fardado e é elogiado, e se alivia; acordado, a alma exterior não volta. Tenta escrever, recita versos, faz ginástica, sem efeito.
Ao fim de oito dias olha o espelho pela primeira vez desde que ficou só e vê uma imagem “vaga, esfumada, difusa”. Com medo de enlouquecer, começa a se vestir para ir embora, e a imagem continua desfeita. De repente lhe ocorre vestir a farda. Veste-a, levanta os olhos e o espelho devolve a figura inteira. Daí em diante, todo dia, a certa hora, ele se veste de alferes e se senta diante do espelho, lendo e meditando, e no fim de duas ou três horas se despe. Com esse regime atravessa mais seis dias de solidão.
O conto acaba sem que Jacobina comente a teoria: “Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.”
