Saramago abre com uma história antiga: numa aldeia perto de Florença, um camponês tocou o sino da igreja para anunciar um funeral, o da justiça. A cena, conta o escritor, aconteceu de fato, séculos atrás. O homem fora lesado por um poderoso e, sem outro recurso, fez do sino o seu protesto. Dessa imagem o autor extrai a pergunta que estrutura o texto: quem toca hoje os sinos pela justiça assassinada no mundo? Saramago examina a distância entre a democracia proclamada e a realidade de milhões de pessoas sem pão, saúde ou dignidade. De que vale o voto, pergunta, a quem não tem o que comer? A globalização econômica, argumenta, funciona como uma nova forma de totalitarismo, com poderes que nenhum voto elege nem controla. É um poder sem rosto, sem pátria e sem tribunal. As palavras de ordem do progresso, o mercado, a competitividade, a eficiência, são postas em causa uma a uma. O escritor recusa o cinismo resignado: se a justiça humana falha, cabe aos cidadãos comuns reclamá-la e refazê-la. A democracia, para merecer o nome, precisa alcançar também a economia. Os direitos humanos, lembra, não descerão prontos do céu: serão conquistados pela ação de todos, ou não serão. O texto encerra devolvendo o sino ao leitor: a indignação organizada é o começo de toda mudança. Tocar o sino, hoje, é recusar a normalidade do inaceitável. Fica a sensação de um chamado direto e pessoal, a prosa de Saramago transformada em ato cívico.