O sermão inicia-se com uma pergunta retórica baseada em Mateus 25: ‘Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer?’. Essa indagação introduz o conceito central de que a caridade é o sinal mais evidente da presença de Cristo na humanidade. Vieira estabelece que ajudar os pobres é equivalente a servir diretamente ao Salvador.
Desenvolvendo sua argumentação, o autor explica que o Juízo Final será determinado pela prática da caridade. As ovelhas representam os que socorreram os necessitados, enquanto os bodes simbolizam os que ignoraram o sofrimento alheio. Essa distinção fundamenta toda a teologia do sermão, mostrando que a salvação depende de ações concretas.
Vieira detalha as condições dos miseráveis na colônia brasileira, pintando um retrato vívido da fome, nudez e abandono. Ele descreve como os ricos acumulam bens enquanto os pobres morrem de privações, criando um contraste impactante que serve de pretexto para sua crítica social.
O pregador ataca duramente os senhores de engenho e comerciantes que exploram escravos e índios, acusando-os de violar os mandamentos cristãos sob o pretexto de acumular riquezas. Ele denuncia a falsa piedade que ignora as necessidades materiais dos mais humildes.
Uma parte significativa do discurso é dedicada à análise da relação entre fé e obras. Vieira argumenta que uma fé sem caridade é inútil, comparando-a a um corpo sem alma. As boas ações não são mérito suficiente para a salvação, mas sim expressão necessária da fé autêntica.
Utilizando a imagem do corpo místico de Cristo, Vieira estabelece que a Igreja é como um organismo onde todos os membros estão interligados. Sofrer de um membro afeta todo o corpo, daí a obrigação de cuidar dos mais fracos como se cuidasse do próprio Salvador.
O sermão inclui uma advertência sobre as consequências do descaso com os pobres. Vieira profetiza castigos divinos para nações e indivíduos que negligenciam a justiça, sugerindo que a miséria coletiva é resultado direto da falta de caridade institucional.
Apesar do tom severo, Vieira oferece esperança através da conversão. Ele argumenta que é possível evitar o Juízo Final através da prática sistemática da caridade, transformando a sociedade através de atos concretos de misericórdia.
A estrutura retórica do sermão segue a tradição barroca com períodos longos e complexos, hipérbores e antíteses marcantes. A linguagem é densa e poética, cheia de figuras de speech que dão ritmo musical ao discurso.
Ao final, Vieira conclama os ouvintes a examinarem suas consciências e agirem imediatamente em favor dos necessitados. O sermão termina com uma oração fervorosa pedindo a graça de reconhecer Cristo nas faces dos pobres e a força para praticar a caridade como caminho de salvação.

