O arquivo abre com um trecho de ficção datado de 2 de julho de 1900: estudantes conversam no pátio da Escola Politécnica até a chegada de um colega, Tito Brandão, que um deles chama de “o príncipe negro”. O diário começa em 1903, sob o título “Um Diário Extravagante”. Lima Barreto se apresenta, diz que tem 22 anos e promete escrever um dia a “História da Escravidão Negra no Brasil”. As notas desse ano falam de fome e de falta de dinheiro: numa delas, o jantar é uma empada comprada com um tostão.
Em janeiro de 1904 ele já está empregado há seis meses, como amanuense da Secretaria da Guerra. Mora com a família, e o pai vive “imerso na sua insânia”. Faz orçamentos, anota tipos da repartição e rascunha o enredo de Clara dos Anjos. Em novembro descreve a repressão que se seguiu aos protestos contra a vacina: gente presa na rua, surrada na ilha das Cobras e mandada para o Acre. Conta que escondeu o caderno por trinta dias. Em 26 de dezembro, um soldado o toma por contínuo pela terceira vez, e ele conclui que isso acontece por causa da cor.
O ano de 1905 é o mais cheio. Em janeiro há nota quase todo dia: os passeios ao Leme, a secretaria, o delírio do pai, que acredita que a polícia vai matá-lo. Lima Barreto planeja um romance sobre a vida dos negros numa fazenda, lê os dois primeiros capítulos de um livro a Alcides Maia e comenta com dureza o enterro de José do Patrocínio. Um texto sem data, do mesmo ano, ataca as teorias das raças superiores e inferiores.
As notas de 1906 tratam do romance de Gonzaga de Sá, e as de 1907 são poucas. Em janeiro de 1908 ele faz o balanço do ano anterior: escreveu quase todo o Gonzaga de Sá, entrou para o Fon-Fon, fez a revista Floreal e recebeu um elogio de José Veríssimo. No mesmo mês, é o único a quem pedem convite na entrada de um navio. Em julho escreve sobre a vontade de se matar, que diz ter desde menino, e sobre o álcool.
Não há notas de 1909. As de 1910 são apontamentos para O Triste Fim de Policarpo Quaresma e uma série de contos populares que ele ouviu de conhecidos. Entre 1911 e 1913 o diário quase se cala: uma ida ao teatro, bilhetes de loteria, a mudança de casa em setembro de 1913. Em abril de 1914 vem o desabafo: “Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada”. Pouco depois ele registra a primeira internação no hospício, de 18 de agosto a 13 de outubro.
De 1915 a 1917 predominam as contas e as datas dos livros: Numa e a Ninfa publicado pelo jornal A Noite a partir de março de 1915, a edição de Policarpo Quaresma paga com dinheiro emprestado, a lista dos exemplares distribuídos, a queixa de que os jornais não falaram do romance. Em setembro de 1917 ele adoece depois de um mês bebendo e escreve que precisa largar a cachaça.
Os anos finais trazem a passagem pelo Hospital Central do Exército, entre novembro de 1918 e janeiro de 1919, a aposentadoria, a publicação de Gonzaga de Sá, uma entrevista contra o futebol e a segunda internação no hospício, de dezembro de 1919 a fevereiro de 1920. A última nota com data é de 13 de dezembro de 1921: ele agradece umas roupas que tinham sido de Emílio de Meneses. Depois dela, o arquivo traz a primeira versão, incompleta, de Clara dos Anjos, escrita em 1904.
