Resumo de Mateus e Mateusa
por Qorpo Santo
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Resumo da obra
A peça se abre no ambiente doméstico de Mateus e Mateusa, casal de velhos unidos há décadas e em desacordo sobre praticamente tudo, cada um entrincheirado em suas manias. Desde as primeiras falas, a discussão está armada: qualquer assunto, por mínimo que seja, serve de estopim para a batalha conjugal. As brigas não seguem a lógica das comédias comuns; os argumentos derrapam, as palavras escorregam, e o diálogo avança aos saltos, pelo inesperado. As filhas do casal entram na contenda, tomando partido e multiplicando a confusão em vez de apaziguá-la, como seria de esperar. Qorpo Santo faz da própria linguagem o centro do espetáculo: frases desmontadas, raciocínios circulares, uma comicidade que nasce do descompasso entre o que se diz e o que se quer dizer. Por baixo do disparate, a peça toca assuntos muito concretos: o desgaste do casamento, a teimosia da velhice, o poder dentro da casa. A violência verbal do casal beira o grotesco, e o riso do leitor vem sempre misturado a um leve mal-estar difícil de explicar. Não há a carpintaria bem-comportada do teatro da época: as cenas se sucedem com liberdade de sonho, e o desfecho não promete harmonia duradoura a ninguém. É exatamente essa estranheza que fez da peça, um século depois, um marco: nela se reconheceu um precursor brasileiro do teatro do absurdo. Ao final, fica a impressão dupla de ter rido de um casal impossível e de ter espiado, muito antes da hora, o teatro que o século XX chamaria de moderno.
