O narrador diz que um velho manuscrito beneditino conta como o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Seus lucros eram contínuos e grandes, mas ele se sentia humilhado por exercer havia séculos um papel sem organização, sem regras e sem ritual. Uma igreja do Diabo, pensou, combateria as outras religiões e as destruiria de vez, porque “há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo”. Bateu as asas e subiu ao céu para comunicar a ideia a Deus e desafiá-lo.
Deus recolhia um ancião quando o Diabo chegou. O Diabo diz que não vem por Fausto, mas por todos os Faustos do século, e que vai fundar uma hospedaria barata: o céu, de preço alto, ficará semelhante a uma casa vazia. Explica por que só agora age. Observou durante séculos que as virtudes são quase todas como rainhas de manto de veludo com franjas de algodão. Puxará as virtudes pela franja e as de seda virão atrás. Aponta o cavalheiro que anuncia em letras públicas as esmolas que dá e o juiz de irmandade que carrega ao peito, nas procissões, o amor de Deus e uma comenda. Deus responde que ele é vulgar e que tudo aquilo já foi dito pelos moralistas. Conta a morte do ancião, que deu a tábua de salvação a um casal de noivos num naufrágio, sem plateia. O Diabo nega até essa morte, atribuindo-a à misantropia. Deus o chama de retórico e sutil e o manda fundar a igreja.
Na terra o Diabo veste a cogula beneditina e prega uma doutrina nova. Confessa que é o Diabo, mas diz que não é o das histórias de beatas: é o gênio da natureza, o verdadeiro pai dos homens. Em seguida substitui as virtudes aceitas por outras. A soberba, a luxúria e a preguiça são reabilitadas, a avareza vira mãe da economia, a ira se defende com a Ilíada, a gula com Rabelais, e a inveja é apresentada como virtude principal. A fraude é o braço esquerdo do homem, a venalidade é o exercício de um direito superior a todos, e a calúnia pode ser praticada mediante pagamento. Por fim ele corta a solidariedade humana e ensina que o próximo não existe.
Todas as virtudes de franja de algodão deixam a capa e se alistam na igreja nova, e as de seda vão atrás. A doutrina chega a todas as regiões e a todas as línguas. Um dia, longos anos depois, o Diabo percebe que muitos fiéis praticam as antigas virtudes às escondidas. Glutões comem frugalmente em dias de preceito católico, avaros dão esmolas à noite, dilapidadores devolvem pequenas quantias. Um droguista do Levante envenena uma geração inteira e socorre os filhos das vítimas com o lucro. Um ladrão de camelos do Cairo tapa a cara para entrar na mesquita. Um falsificador calabrês, um dos melhores apóstolos do Diabo, dá gratificações aos criados e se confessa toda semana sem contar nada, mas se benze duas vezes.
Trêmulo de raiva, o Diabo sobe ao céu e pergunta a causa. Deus o ouve sem repreendê-lo e sem triunfar. Diz que as capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão, e que isso é a eterna contradição humana.
