Resumo de Crônica do viver baiano seiscentista – cidade e seus pícaros – Maria João
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Resumo da obra
Os poemas aqui reunidos pertencem ao ciclo que a tradição editorial chamou de a cidade e seus pícaros, dentro da vasta obra satírica de Gregório de Matos, o poeta que a Bahia de seu tempo conheceu e temeu sob o apelido de Boca do Inferno. Neles, a Salvador seiscentista aparece pelo avesso: não a sede solene do governo-geral, mas as ruas, becos e alcovas onde a vida de verdade acontecia. Maria João é o nome em torno do qual gravitam estes versos, uma dessas personagens populares que o poeta fixou com mistura de humor e crueldade. Gregório trabalha por retratos: descreve, exagera, compara, e aos poucos a figura ganha corpo e voz diante do leitor. O tom oscila entre a galanteria maliciosa e a zombaria aberta, no vaivém característico de sua poesia burlesca, que nunca deixa o leitor saber com certeza onde termina o elogio e onde começa a troça. A técnica, porém, é sempre rigorosa: sonetos, décimas e romances seguem à risca as formas cultas do barroco ibérico. Por trás do riso, desenha-se uma sociedade colonial obcecada por aparências, em que honra e pecado se negociavam todos os dias. O poeta não poupa ninguém, nem a si mesmo, e é essa falta de piedade que dá aos versos seu vigor de documento. Lidos em sequência, os poemas compõem uma pequena crônica de costumes, feita de flagrantes em vez de enredo contínuo. Ao final, fica a sensação de ter espiado, por uma fresta indiscreta, o cotidiano de uma cidade que os papéis oficiais preferiram esquecer.
