Resumo de Crônica do viver baiano seiscentista – cidade e seus pícaros – opúsculo de Pedro Alz. da Neyva
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Resumo da obra
Este opúsculo reúne versos que Gregório de Matos fez girar em torno de um único personagem da Salvador seiscentista, escolhido como alvo de uma campanha de escárnio em regra. A prática era corrente: na cidade sem imprensa, a sátira manuscrita cumpria o papel de jornal, tribunal e pelourinho ao mesmo tempo. O poeta abre o retrato pelo exagero, ampliando defeitos e ridículos até que o homem se torne tipo, e o tipo, caricatura reconhecível por toda a cidade. Cada poema retoma o assunto por um ângulo novo, como quem circula em volta da vítima sem lhe dar descanso. A acumulação é parte do castigo: mote sobre mote, rima sobre rima, o alvo vai sendo coberto de apelidos e comparações. Há momentos em que a troça se refina e vira ironia de salão; em outros, desce sem cerimônia à praga de rua. Por trás do caso particular, desenha-se o funcionamento da cidade colonial, movida a reputação, inveja e murmúrio, onde um apelido bem rimado podia pesar tanto quanto uma sentença. O leitor moderno já não pode medir a justiça da sátira, mas reconhece nela a energia de uma língua em estado de invenção, capaz de transformar o insulto em forma de arte. Resta também a lição involuntária do gênero: o poder de um poeta para fixar, por séculos, o nome de quem talvez preferisse o esquecimento. Termina-se a leitura com a impressão de ter assistido a uma execução pelo riso, conduzida com a precisão de um mestre.
