Crônica do viver baiano seiscentista: cidade e seus pícaros – opúsculo de Pedro Alz. da Neyva é um conjunto de versos satíricos de Gregório de Matos concentrados em um único alvo, ao modo dos libelos em verso que corriam de mão em mão na Salvador do século XVII. O nome que dá título ao opúsculo pertence a essa galeria de figurões da cidade que o poeta escolheu para espelho de seus vícios.
A sátira pessoal era gênero praticado com método na colônia, e ninguém a exerceu com mais talento que o Boca do Inferno. Aqui, a invectiva se organiza como um pequeno processo público, em que o retratado comparece diante do tribunal do riso.
Para o leitor de hoje, o interesse está menos no alvo, há muito esquecido, do que na máquina poética que o cerca: a imaginação verbal, as rimas de efeito, a crueldade elegante. É uma amostra concentrada do que a poesia barroca brasileira tinha de mais afiado.
