Manuscrito de um Sacristão é um conto de Machado de Assis, recolhido em Histórias sem Data, que usa um artifício caro à ficção do autor: o texto encontrado. O que lemos se apresenta como páginas escritas por um sacristão, testemunha discreta de uma história que julgou digna de registro.
Do seu posto à sombra da igreja, o narrador observa o trânsito entre a devoção e o mundo, e é dessa fronteira que o conto extrai sua matéria: vocações postas à prova, virtudes que se olham no espelho, sentimentos que o hábito não suprime.
Machado maneja o registro eclesiástico com ironia fina, sem desrespeito e sem inocência, interessado menos em julgar a religião que em flagrar a natureza humana sob qualquer veste. Para o leitor, é a chance de ver o mestre trabalhando um cenário singular com as mesmas armas de sempre: elegância, malícia e uma compreensão desencantada, mas nunca cruel, das pessoas.

