Resumo de Crônica do viver baiano seiscentista – a cidade e seus pícaros – a freira:ralo, roda e grade
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Resumo da obra
Os poemas deste conjunto pertencem ao grande painel satírico que Gregório de Matos dedicou à Salvador seiscentista e a seus tipos humanos. O tema agora é o convento, instituição central da vida colonial, para onde iam filhas de famílias ricas, com ou sem vocação, muitas vezes menos por fé do que por estratégia de família. Ralo, roda e grade, os dispositivos que mediavam todo contato com o exterior, dão título ao conjunto e ritmo aos versos. Diante deles posta-se o poeta, ora galanteador rendido, ora observador zombeteiro dos costumes da clausura, registrando um jogo que toda a cidade conhecia e fingia não ver. O jogo amoroso avança por sinais miúdos: uma voz atrás da grade, um recado pela roda, uma promessa que talvez não se cumpra. Gregório explora com gosto o paradoxo barroco do desejo aumentado pela interdição, do amor que cresce justamente porque é proibido, tema que ele leva aqui às últimas consequências. Não falta a nota satírica: a devoção de fachada, os interesses mundanos que entravam no convento junto com as noviças. A linguagem alterna requinte e atrevimento, passando do madrigal delicado à pilhéria de esquina em poucas estrofes, com a segurança de quem domina os dois registros. No conjunto, desenha-se um retrato inesperado da religiosidade colonial, mais humana e contraditória do que os sermões faziam crer. Ao fechar a leitura, fica a imagem poderosa da grade: o mundo de um lado, o desejo do outro, e a poesia atravessando livremente os dois.
