Crônica do viver baiano seiscentista: cidade e seus pícaros – Adãos de Massapê reúne poemas satíricos de Gregório de Matos voltados contra a vaidade genealógica da Bahia colonial. O próprio título entrega a graça: Adãos moldados no massapê, o barro escuro do Recôncavo, homens sem antepassados ilustres que se proclamavam nobres da noite para o dia.
Conhecido como Boca do Inferno, o poeta conviveu de perto com essa fidalguia improvisada, enriquecida pelo açúcar e ansiosa por brasões, e devolveu a ela um espelho impiedoso. Em seus versos, genealogias fabulosas se desmancham em lama, e títulos comprados valem menos que o barro de que seus donos foram feitos.
A leitura interessa tanto pelo humor corrosivo quanto pelo valor de documento social: poucas obras expõem com tamanha nitidez o jogo de aparências da sociedade colonial. E tudo vem na forma exigente do barroco, em que o deboche mais rasteiro obedece à métrica mais culta, prova do domínio absoluto que Gregório tinha de seu ofício.
