O Lapso é um conto de Machado de Assis incluído em Histórias sem Data, e um dos exemplos mais divertidos de sua veia fantasista. A ação recua ao Rio de Janeiro colonial de 1731 para contar o caso de Tomé Gonçalves, homem abastado que, de repente, deixa de pagar a todos os seus credores.
O mistério ganha solução inesperada com a chegada de Jeremias Halma, médico holandês que diagnostica no devedor uma doença singular: um lapso de memória que o fez esquecer, especificamente, o ato de pagar. A cura dessa amnésia tão conveniente movimenta credores aflitos e põe em marcha uma sátira deliciosa.
Sob a anedota, Machado mira alvos permanentes: a relação dos homens com o dinheiro, as desculpas que a consciência fabrica e a facilidade com que vícios viram doenças quando convém. Curto, engenhoso e de humor cristalino, o conto mostra o mestre transformando uma pilhéria em pequena obra-prima de ironia moral.

