Voo Noturno é o segundo romance de Antoine de Saint-Exupéry, publicado em 1931, com prefácio de André Gide. Ganhou o prêmio Femina no mesmo ano. O autor tinha passado os anos anteriores em Buenos Aires, dirigindo a filial argentina da Aéropostale, e o livro se passa nesse mundo: o das linhas que levavam o correio pela América do Sul quando voar à noite ainda era uma aposta.
Do que trata Voo Noturno
Toda a história cabe numa noite. Três aviões do correio voam em direção a Buenos Aires, vindos da Patagônia, do Chile e do Paraguai, para que a mala siga de madrugada no correio da Europa. No escritório, Rivière, o diretor da rede, acompanha cada um pelos telegramas das escalas.
Pellerin chega do Chile depois de atravessar os Andes no meio de uma tempestade e não sabe explicar direito o que viu. O do Paraguai vem sem problemas. Fabien, que traz o correio da Patagônia, entra num ciclone que cobre o litoral. Não consegue pousar em nenhuma escala, perde contato com o chão e, com gasolina para pouco mais de uma hora, sobe acima das nuvens, onde encontra um céu calmo e cheio de estrelas.
Em terra, a mulher de Fabien, casada com ele havia seis semanas, telefona para o escritório e acaba indo falar com Rivière. Robineau, o inspetor, tenta ser humano e não consegue. Rivière sabe que o avião está perdido e manda decolar o correio da Europa assim mesmo.
Rivière e o preço do dever
O romance é menos sobre Fabien do que sobre o homem que o mandou voar. Rivière castiga mecânicos por atrasos mínimos, proíbe os chefes de fazer amizade com os subordinados e acredita que a linha vale mais do que a felicidade de cada um. Gide, no prefácio, admira essa figura e cita as frases dele.
É aí que o livro divide os leitores. A escrita é curta e precisa, e os capítulos no céu, com o rádio falhando e as luzes das cidades sumindo, estão entre as melhores páginas do autor. A defesa do chefe que sacrifica os seus pilotos, por outro lado, envelheceu mal, e na minha opinião o livro é mais forte quando mostra Fabien e a mulher do que quando explica Rivière.
Quem quiser ler o autor em ordem pode começar por Carta a um Refém, bem mais tardia, para ver como a ideia de dever virou, em 1943, uma ideia de amizade.
Sobre esta edição
Esta é uma tradução nova, feita por Livros Domínio Público a partir do texto francês, com o prefácio de André Gide e os 23 capítulos do romance. São 84 páginas em PDF, também disponíveis em EPUB. Saint-Exupéry morreu em 1944 e Gide em 1951; no Brasil, o romance está em domínio público desde 2015 e o prefácio desde 2022.

