Os Sertões saiu no fim de 1902, pela editora Laemmert. Euclides da Cunha era engenheiro e, em 1897, tinha ido ao sertão da Bahia como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo para cobrir a Guerra de Canudos. O livro não é um romance. É um estudo da terra e da gente do sertão, seguido do relato da campanha militar contra o arraial de Antônio Conselheiro. Na nota que abre o volume, o autor diz que essa campanha foi, “na significação integral da palavra, um crime”.
Do que trata Os Sertões
A obra tem três partes. “A Terra” descreve o relevo, o clima e a vegetação da região de Canudos: as secas que voltam em ciclos, a caatinga, o juazeiro, o umbuzeiro, que o autor chama de “árvore sagrada do sertão”. Numa das passagens mais fortes, Euclides encontra perto do arraial o corpo de um soldado morto três meses antes, intacto por causa da secura do ar.
“O Homem” discute a formação do povo brasileiro e chega ao sertanejo. É ali que está a frase “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, seguida do retrato do vaqueiro e da comparação com o gaúcho do Sul. Depois vem a vida de Antônio Conselheiro, da família no Ceará à chegada a Canudos, em 1893, e a descrição do arraial, onde se levantavam até doze casas por dia.
“A Luta” conta a guerra. Tudo começa com uma compra de madeira em Juazeiro que não foi entregue. Uma força de pouco mais de cem soldados segue para o sertão e é atacada em Uauá, em novembro de 1896. A segunda expedição, do major Febrônio de Brito, atravessa a serra do Cambaio em janeiro de 1897 e recua quando já estava à beira do arraial.
Como o livro foi escrito
Euclides chegou à região do conflito em 16 de setembro de 1897 e saiu de lá quatro dias antes do fim da guerra, que terminou em 5 de outubro. Viu, portanto, só as últimas semanas. O que veio antes ele reconstituiu com relatórios militares, partes oficiais de combate e o relatório de um frade capuchinho que esteve em Canudos em 1895, todos citados no texto. Escreveu o livro em São José do Rio Pardo, enquanto dirigia as obras de uma ponte. Depois publicou Contrastes e Confrontos (1906) e Peru versus Bolívia (1907). À Margem da História saiu depois de sua morte.
O que envelheceu
Euclides explicava o sertão com a ciência do seu tempo, e parte dela era teoria racial. No trecho que ele mesmo intitula “Um parêntese irritante”, afirma que “a mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial” e que o mestiço é, “quase sempre, um desequilibrado”. Fala em raças superiores e inferiores e apresenta Antônio Conselheiro como um caso de atavismo. Nada disso se sustenta hoje. Lido agora, o próprio relato parece desmentir a teoria: o sertanejo é mostrado como forte e tenaz, e as duas expedições narradas neste volume terminam em retirada.
A leitura também não é fácil. A primeira parte é a mais árdua, cheia de vocabulário de geologia e de botânica, em frases longas.
Sobre esta edição
O arquivo é um PDF de 119 páginas e não traz a obra inteira. A primeira página tem o cabeçalho da Fundação Biblioteca Nacional e a indicação “Volume 1”. O texto contém a nota preliminar, “A Terra” (cinco capítulos), “O Homem” (cinco capítulos) e as duas primeiras seções de “A Luta”: “Preliminares” e “Travessia do Cambaio”. Termina na retirada da segunda expedição. Ficam de fora as quatro seções finais de “A Luta” (Expedição Moreira César, Quarta Expedição, Nova Fase da Luta e Últimos Dias), ou seja, a terceira e a quarta expedições e a destruição de Canudos. Euclides da Cunha morreu em 1909, e a obra está em domínio público no Brasil.

